Exposição AM(A)DOR por João Victor (Roleta)
De 07 de fevereiro a 27 de março de 2019

“...que o que é triste, terrível e, até horrendo
nos atraia com um fascínio irresistível; que
não nos sintamos repelidos por cenas de dor
e de terror, mas com igual força atraídos…”
Friedrich Schiller

Todo o ato de criação é paradigmaticamente um ato de instauração de alguma ordem sobre o caos de que resulta aquilo a que se chama proporção, cosmos (mundo ordenado) ou beleza. O que supõe o exercício de uma certa violência e, por isso mesmo, alguma resistência, mais ou menos ativa, mais ou menos passiva, que provoca a sensação a que chamamos dor. Todo o ato de criação é um ato doloroso, tanto da parte de quem cria, como da parte de quem se vê envolvido nesse processo criativo.

Sob a influência do livro Ostra Feliz Não Faz Pérola (2008) do escritor Rubem Alves, o artista Roleta - João Victor - constrói sua exposição Am(a)dor. A arte que surge aqui é fruto das condições dolorosas existentes na vida dos indivíduos e do próprio artista.

O ato de criação humana supõe um mundo já constituído por sujeitos, com seus dramas existenciais, com as alegrias e as dores dos seus cotidianos. Com passados que se sedimentam em identidades em movimento, com presentes que se alimentam de atos e entreatos, com futuros em que as utopias se fragmentam nos estilhaços do tempo. Toda a criação humana é uma tecelagem de múltiplos fios que fazem do nosso corpo, do corpo humano, este corpo que é permanentemente construído e reconstruído. Um arlequim cuja maquiagem se confunde com a pele numa mestiçagem do híbrido e do efémero e numa bricolage de gestos, sentidos, dores, paixões e sorrisos num fluxo eterno do eu e do outro, ou do eu com o outro e com os outros.

Quão doloroso é o parto da criação... Quão dolorosas são as contrações através das quais se traduz no papel, no palco vazio e no corpo vazio, mas ao mesmo tempo cheio, o espectáculo do mundo. O artista aqui faz-se presente no mundo através de sua criação - a arte. Isso se dá primeiro pelo esvaziamento do que somos, essa dor que é o paradoxo do criador: a dor de voltar a esvaziar o que em si criou e que se mistura com o prazer de ver diante de si o ato e o resultado da criação.

A estrutura estética das obras da exposição aqui apresentadas são um misto de elementos do Art Nouveau, Surrealismo e do Grafitti. A dor é o elemento conceitual de caráter psicanalítico que perpassa todas as obras da exposição. As diversas dores que acometem a alma humana, como função de refletir profundamente sobre os aspectos da sua existência e da capacidade de sublimá-la.

Segundo o artista, a relação de dor e arte possui uma fundamentação bastante sólida quanto aos conceitos filosóficos. Nietzsche questiona, em O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música (1872), por que os gregos não sucumbiram ao pessimismo, visto que, tragédia era tragédia em oposição à crença cristã de que o caos será transcendido na divindade. A resposta foi a evidência de que os gregos foram pioneiros em transformar a dor em beleza

Vone Petson - curador
 

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