Exposição Já fui Floresta

de José de Medeiros - MT / Projeto Sesc Amazônia das Artes
de 01 de novembro a 15 de dezembro – entrada gratuita 
Galeria Sesc de Artes – Centro de Atividades do Sesc
Abertura e bate-papo com a artista dia 01 de novembro às 19h

 

Já Fui Floresta

Foi em um território mítico, localizado ao norte de Mato Grosso, munícipio de Feliz Natal, Parque Indígena do Médio Xingu, que José Medeiros redescobriu o universo rico e complexo dos índios Ikpengs. É ele quem conta: “Nesse labirinto de rio e selva, escolhi fotografar esta comunidade porque tenho com ela uma singular afinidade. Durante dez anos, recebi alguns destes indígenas em minha casa na cidade de Cuiabá. Hoje, conheço melhor suas referências culturais e consigo refletir sobre as distintas etnias, que vivem no Xingu, uma das reservas mais conhecidas no mundo”.

Partindo deste relato, a interação de Medeiros com os Ikpengs torna-se aurdidura para o projeto “Já fui Floresta” em andamento. Suas estadias no Xingu, em períodos alternados, tem levado o fotógrafo a vivenciar hábitos cotidianos, como a pesca, praticada nos imensos rios que se expandem de forma labiríntica dentro da floresta. Somam-se a isso os expressivos rituais e hábitos alimentares incomuns compartilhados no dia a dia no Xingu.

Trata-se de reconhecer nessa relação de troca, o interesse de Medeiros em repassar o conhecimento e a experiência adquirida em sua trajetória fotográfica palmilhada há mais de vinte anos através do Olhar Indígena. Assim, não somente ensina os índios a fotografar como defende os seus direitos com a valorização de atributos simbólicos ligados intrinsecamente à própria imagem do índio e às raízes de sua cultura. Nesse sentido, a fotografia, em forma de inventário, vem lhe permitindo expandir significados e informações sobre esta cultura ancestral e sua transformação decorrente do contato do indígena como mundo globalizado. Não por acaso, descrição, análise cultural, interpretação são palavras chaves, que despontam de sua narrativa visual, mediada pela perda da tradição e sua respectiva retomada num presente cada vez mais mutável.

É possível ainda, traçar a conexão da obra de Medeiros com tantos outros mestres antepassados e fotógrafos-artistas contemporâneos que tem se dedicado a refletir sobre questões das nações indígenas no Brasil. São referências memoráveis de nosso patrimônio iconográfico o precioso acervo fotográfico deixado por Albert Frisch que, em 1865, fotografou os índios antropófagos da tribo Amaúma, os aculturados dos arredores de Manaus, os barqueiros bolivianos na margem do Rio Negro; assim como a vasta produção de George Huebner sobre índios amazônicos fotografados no seu próprio habitat ou em cenas posadas em seu atelier no final do século XIX. E, ainda, as reportagens de Jean Manzone José Medeiros, publicadas na revista O Cruzeiro, no final dos anos 40, que fizeram uma verdadeira redescoberta imagética de nosso país. E last but not least, em tempos atuais, as obras de Rosa Gauditano e Claudia Andujar, para citar apenas alguns autores que tomaram para si este tema como vasto lugar de passagem para o campo de reflexão artística.

Em sua inserção nessas abordagens múltiplas, Medeiros procura indagar sobre a cultura indígena e o lugar que lhe cabe na sociedade contemporânea. Suas fotos descortinam tradições ancestrais. Talvez, por isso, o projeto “Já fui floresta” vem mostrar a realidade, a convivência do índio que, em meio ao mundo globalizado, vê o futuro em perspectiva. Ao diluir o real com o uso de efeitos luminosos, que ofuscam as formas visíveis de um ritual, Medeiros reitera a fugacidade da existência, que ganha sentidos imponderáveis na relação sócio-cultural com o corpo da arte.

Angela Magalhães / Nadja Fonseca Peregrino
Curadoras e pesquisadoras associadas


 

 

 

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